Ler, Pensar e Escrever | Marco Pena Jr

Marcos Pena Júnior é natural de Caruaru, Pernambuco. Afirma que se entende como uma grande e histórica mistura de índios, negros, mamelucos, mestiços, brancos, “portugueses da Holanda”, caboclos e mulatos, como escreveu em seu poema “Quantos rios nascem no Sertão e desembocam no Mar?”. No final da adolescência rumou para Natal, no Rio Grande do Norte, onde aos dezessete anos iniciou graduação em ciências econômicas e começou a trabalhar. Também aí cursou MBA e mestrado em engenharia de produção. Diversas atividades profissionais foram se seguindo ao longo do tempo, tendo sido sua atuação como professor universitário, tanto na Universidade Federal do RN, quanto em uma faculdade particular, a que mais o cativou. Também na capital potiguar, casou e teve filhas. Na virada dos anos 2000 para os 2010 mudou para Brasília, Distrito Federal. Atualmente vive na capital do País. Desde a adolescência tem interesse especial por literatura, escrevendo poemas desde muito cedo. Atualmente dedica-se a escrever poemas, artigos de opinião, resenhas, críticas, artigos técnico-científicos, além de achar um tempinho para fotografia … ver e sentir o mundo, no fim das contas, é o que o atrai.
Filmes

The Ballad of Buster Scruggs

Os irmãos Coen (conhecidos, dentre outros, por “Fargo: Uma Comédia
de Erros”, “Matadores de Velhinha”, “Onde os Fracos Não Têm Vez” e
“Queime Depois de Ler”) assinam o roteiro e são responsáveis pela direção
de “The Ballad of Buster Scruggs”. Não à toa, o filme parece um coleção
de contos. Aliás, essa é a maneira pela qual se apresenta a obra, é algo
como se o espectador estivesse lendo um livro de contos (assim mesmo, em
primeira pessoa). Resumindo e antecipando: o filme é muito, muito bom.

Inicia com a história do criminoso Buster Scruggs, um animado
pistoleiro do antigo oeste americano, que anda trajado de branco, e está
praticamente sempre sorridente e cantando. Essa primeira história inicia
numa locação deslumbrante, um deserto cheio de formações rochosas. Embora haja, aparentemente, algum tratamento digital para as imagens, já há aí uma grande entrega da obra. Scruggs se mete em uma disputa ao chegar num típico saloon do oeste americano. Ao tentar recusar assumir uma mão numa disputa de poker, seu adversário lhe diz: “You see’em, you play’em!” (Algo como: “Você viu as cartas, então você joga com elas). Esse é o momento em que Scruggs deixa a todos atônitos com sua ação e sua
habilidade. “Eu não tenho uma natureza má, mas quando se está desarmado suas táticas precisam ser de Arquimedes”. O que exatamente Scruggs quis dizer com táticas de Arquimedes é um ponto a ser pesquisado. O filme é repleto de referências como essa.

Apenas 12’45” de filme já são suficientes para achá-lo
sensacional!!! Cinco balas, cinco dedos, e a última de cabeça para baixo, de costas e pelo espelho!!! É mais que sarro e criatividade, é pura
animação para qualquer tarde!! Mas “não se pode ser o melhor para
sempre”, e o para sempre dura menos que um oitavo do total de todas as
histórias a serem contadas. Excepcional! Matadores-cantores no velho
faroeste. O mais forte, o melhor sobrevive, vai em frente … até encontrar
o próximo “mais forte e melhor”.

James Franco entrando num banco no meio do nada e disputando a
existência com um velhinho baixinho e meio louco. Uma atuação para ser
lembrada, embora curta. A vontade de ver essa história num longa com o
Franco atuando dessa forma se torna enorme. Sacos de dinheiro aos irmãos Coen!! Fazem por merecer. Quatro julgamentos! Quatro! “First time”??? Ironia fina, hilário, comicidade no meio da selvageria sem lei. Joel e Ethan Coen não precisam pensar em assaltar um banco, merecem receber
sacos de dinheiro.

Toda a tragédia, todo o drama, toda humilhação e dor pode ser
concentrada numa única vida? Liam Neeson é incapaz de ser um personagem diferente? Um ser humano pode ter menos valor que uma galinha? Alguns homens se sentem satisfeitos em usar outros como instrumentos. Se sua moralidade os permitirem, são capazes de usar outra vida como um meio para o alcance de um pequeno objetivo. Da mesma forma, são capazes de se desfazerem de tal vida, facilmente, sem que lhes custe muito. “… government of the people, by the people, for the people, shall not perish from the earth” (… governo do povo, pelo povo, para o povo, não perecerá na terra); a mensagem dos irmãos Coen nessa citação direta do Discurso de Gettysburg – do então Presidente dos EUA, Abraham Lincoln, que o proferiu durante a Guerra Civil Americana em 19 de novembro de 1863 (está completando 155 anos nesse dia 19) – não poderia ser mais clara.

Pode o homem ser uma força que assusta toda a natureza? Parece certo
que a força que impulsiona o homem à conquista, à vontade de ter, o leva
a superar o que precisar passar por cima. Tom Waits tem uma excelente
atuação, faz saltar da tela a mensagem do quanto a impulsão do homem ao
trabalho como meio para o ganho é forte, e tão mais forte quanto maior a
possibilidade do ganho. O trabalho pode ser suado, penoso e moral ou
amoral, sujo e traiçoeiro (em verdade, o não-trabalho). Muitas vezes, “Só
as pegadas no campo e a terra mexida restaram da vida turbulenta que
havia interrompido a paz do local e seguido em frente”. O que
verdadeiramente importa se o potencial de ganho é alto?!

E a vida pode dar uma pirueta ou piruetas, e fazer tudo que parecia
sólido e certo se transformar em areia movediça. Só o desespero sobra. Só
falta e ausência. E mesmo em ausência é a cooperação que nos move à
frente. A história do homem não é uma história de bravos, fortes,
inteligentes, astutos conquistadores solitários. Os solitários, por mais
corajosos e fortes, morreram sem disseminar seus genes. Os seres humanos
que cooperaram entre si foram mais longe, viveram mais, construíram mais, superaram mais desafios, lograram mais prole, deixaram para a história a disseminação dos seus genes.

E aonde chega o ser humano, por fim? Tentar entender o que somos?
Entender o que, no limite, faz diferir um de outro… Cada um de nós
aparenta acreditar ter as respostas, não importa o quão amplas ou
estreitas são nossas experiências, cada indivíduo teima em ter (e em ser)
a medida correta. É possível observar isso na mais populosa multidão em
uma grande “arena” ou no mais estrito grupo no menor dos cubículos. Cada indivíduo vai levando sua vida, julgando os outros, sendo repulsivo,
afastando-se pouco a pouco por motivos fúteis uns dos outros, entretidos
com bobagens, deixando de fazer, de ser, desperdiçando grande parte da
vida. Quando a viagem acaba, quando chega o fim da linha, não é incomum o viajante ter jogado fora a oportunidade de aproveitar a viagem, sem ter
nunca entendido de fato o que passou e o que está acontecendo ao seu
redor.

Aos irmãos Coen, resta agradecer pelas excelentes doses de
comicidade, drama, tragédia, suspense e motivos para refletir. As seis
histórias do filme têm uma sequência e lógica entre elas incrível, ainda
que sejam sutis e difícil de perceber – não estão no “campo do roteiro em
si”, mas no da natureza humana. Joel e Ethan merecem todo sucesso que já
alcançaram. Sucesso que deve ainda aumentar em suas vidas e ao qual “The Ballad of Buster Scruggs” já os está levando. O filme tem conquistando
muito reconhecimento, recebeu indicações nos festivais de Veneza, de
Adelaide e Camerimage, tendo conquistado o prêmio de melhor roteiro no
primeiro. É certo que o nome do filme será lido algumas vezes na próxima
cerimônia do Oscar.

Fonte
Marcos Pena Jr/ Ler, Pensar e Escrever
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