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Uma receita para perder a alma

Gilbert Keith Chesterton
Gilbert Keith Chesterton
Gilbert Keith Chesterton
Gilbert Keith Chesterton

Para o público latino-americano – a maior parte, aparentemente -, taberna soa uma palavra estranha. A melhor definição encontrada em dicionário é: loja modesta de comes e bebes. Esse é, de fato, o sentido original do termo. Claro que temos no Brasil muitas “modestas lojas de comes e bebes”, isso não nos é estranho. O que não é comum é que as denominemos de tabernas, elas são nossas vendas, bodegas. Em inglês o termo tavern refere-se aos ambientes de comercialização daqueles tipos de produtos; e quando tais ambientes dispunham de autorização para que hospedassem clientes, eram chamados de inn. No século XX os termos passaram a ser intercambiáveis e, em suas últimas décadas, foi caindo em desuso o primeiro.

Lançado em 1914, na Inglaterra, The flying inn, “A taberna ambulante” (Chesterton, Gilbert Keith. A taberna ambulante. Porto Alegre, RS: Edições Hugo de São Vítor, 2018.) como ficou seu título em recente versão nacional, narra a história do proprietário de uma taberna chamada “O velho navio”, o sr. Humphrey Pump. Após a decretação de uma lei, por parte do poderoso, dissimulado e envolvente Lorde Ivywood, que impossibilitaria Pump de continuar com as atividades da taberna, e por atitude tomada por seu cliente e amigo de longa data capitão Patrick Dalroy, passam ambos, Hump e Dalroy, a se locomover em fuga pelas mais diversas localidades com a placa d’O velho navio, um barril de rum e uma enorme roda de queijo.

Novidades comportamentais que vão começando a aparecer, com destaque para aquelas impostas pelas leis

 

Tentando escapar da perseguição de Ivywood, os dois amigos vagueiam por e ao redor de Pebbleswick, cidade inglesa ficcional de Chesterton. Nessas andanças, a dupla vai se deparando com situações que sempre os colocam em meio a debates sobre as tradições de seu país e as novidades comportamentais que vão começando a aparecer, com destaque para aquelas impostas pelas leis. Esse é o fio condutor da história, que tem como liga narrativa o processo de mudança de status de um sábio oriental,

(…) um senhorzinho nanico, com cara de coruja e um tarbuche vermelho na cabeça, a balançar anemicamente (sic) um velho guarda-chuva verde. Seu cenho castanho sulcado por rugas parecia uma noz; seu nariz fazia lembrar a Judéia; já sua barba, negra e pontiaguda, a longínqua Pérsia (Chesterton, 2018, p. 27).

Que de um louco que dava sermões ao vento na praia da cidade, passou a principal influenciador da sociedade local e de seu principal líder, o Lorde Ivywood.

O texto de Chesterton é repleto de referências, o que, se por um lado demonstra toda sua erudição, dificulta sobremaneira a leitura. O ponto baixo da obra é sua narrativa desconexa, com muitos saltos, cenas que estão em determinado local/tempo e de repente passam para outro. Não é uma história por si atraente, tanto menos uma que faça com que o leitor queira descobrir o que vem na sequência. O que G. K. construiu aqui não contribui para ganhos significativos ao meio artístico-literário. É bastante provável, inclusive, que grande pate dos leitores que se disponibilizam a iniciar a leitura, não a concluam.

Uma mensagem acerca da fragilidade da população inglesa em duvidar mais das novidades e, assim, avaliar com cuidado e acurácia as opções que lhe são colocadas e, adicionalmente, sopesar melhor os lados possíveis para decisão

A taberna ambulante
A taberna ambulante

Muito embora numa análise rápida possa parecer que Chesterton está querendo transmitir a mensagem de quão negativa pode ser a influência da cultura oriental, especialmente do Oriente Médio, sobre a Inglaterra; ao nos determos um pouco mais sobre sua história, podemos depreender que ele está mais fortemente deixando uma mensagem acerca da fragilidade da população inglesa em duvidar mais das novidades e, assim, avaliar com cuidado e acurácia as opções que lhe são colocadas e, adicionalmente, sopesar melhor os lados possíveis para decisão. Em certa altura do texto é possível extrair a seguinte interpretação do que parece ser uma metáfora de G. K.: a alma do homem é como uma parede com alizar, parte clara, parte escura, e ele deve lutar constantemente para que prevaleça o bem. Uma nítida mensagem conservadora.

Mensagem crítica acerca da fragilidade moral dos homens em reconhecer sua falibilidade e limitações e em atribuir mais valor às tradições que às inovações morais de alguns super-homens

Não há dúvidas que o livro contribui para a filosofia, mais diretamente para seu campo dedicado à política. Embora The flying inn não esteja entre as obras de destaque de Chesterton, deve estar entre aquelas analisadas por estudantes de filosofia política por seu forte argumento em defesa de um comportamento conservador. Na última página do livro, na última fala de Ivywood (seja ela real ou fruto da imaginação de Joan – personagem que passa toda a história dividida entre diferentes possibilidades de vida), Gilbert deixa clara uma mensagem crítica acerca da fragilidade da alma, da moral dos homens de sua época, incapazes que estavam de reconhecer sua falibilidade e limitações (não apenas as próprias, mas dos outros homens) e atribuir mais valor às tradições que às inovações morais de alguns super-homens.

 

Marcos Pena Júnior é economista e escritor, mantém suas produções disponíveis em marcospenajr.com.
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Ler, Pensar e Escrever | Marcos Pena Jr

Ler, Pensar e Escrever | Marcos Pena Jr

Marcos Pena Júnior é natural de Caruaru, Pernambuco. Afirma que se entende como uma grande e histórica mistura de índios, negros, mamelucos, mestiços, brancos, “portugueses da Holanda”, caboclos e mulatos, como escreveu em seu poema “Quantos rios nascem no Sertão e desembocam no Mar?”. No final da adolescência rumou para Natal, no Rio Grande do Norte, onde aos dezessete anos iniciou graduação em ciências econômicas e começou a trabalhar. Também aí cursou MBA e mestrado em engenharia de produção. Também na capital potiguar, casou e teve filhas. Na virada dos anos 2000 para os 2010 mudou para Brasília, Distrito Federal. Atualmente vive na capital do País. Desde a adolescência tem interesse especial por literatura, escrevendo poemas desde muito cedo. Atualmente dedica-se a escrever, além dos poemas, artigos de opinião, resenhas, críticas, artigos técnico-científicos, além de achar um tempinho para fotografia … ver e sentir o mundo, no fim das contas, é o que o atrai.

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